Associação inaugura Armazém Quilombo Kalunga para fortalecer a produção tradicional no Cerrado

A Associação Quilombo Kalunga (AQK) inaugurou, no último sábado (29), o Armazém Quilombo Kalunga — um espaço voltado à valorização da sociobiodiversidade e ao fortalecimento da produção quilombola no Cerrado.

O evento contou com a presença do prefeito de Cavalcante (GO), Valmir Kalunga, dos dirigentes da AQK, Carlos Aroeira e Ester Fernandes, além de representantes de comunidades quilombolas e organizações parceiras.

A programação reuniu diversas atividades voltadas ao compartilhamento de saberes e à celebração da cultura Kalunga. Houve feira livre com produtos das comunidades, rodas de conversa, oficinas, cine debate, apresentações musicais e roda de viola com forró — tudo com o objetivo de reafirmar a luta por território e identidade.

“Para que esse dia chegasse, foi preciso muita luta”, destacou o prefeito Valmir Kalunga. Ele elogiou a criação do espaço e reafirmou o compromisso da gestão municipal em apoiar a AQK. “Estamos à disposição para pensar formas de transporte dos produtores até a cidade.

O nosso objetivo é estar junto na luta para garantir o futuro do nosso sítio histórico e patrimônio cultural Kalunga”, completou.

A vice-presidente da associação, Ester Fernandes, ressaltou o impacto do armazém na economia das comunidades. “Essa iniciativa fortalece a produção quilombola e a geração de renda, porque o mercado estimula as pessoas a produzirem mais para vender”, explicou.

Para Jhonny Martins, diretor administrativo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o armazém simboliza mais do que um ponto de vendas: “Não é só um armazém. É resistência. É permanência.

É a valorização da nossa cultura, do nosso saber. Acredito que ele vai gerar não só melhoria de vida para o povo Kalunga, mas também mais visibilidade para os mais de cinco mil quilombolas espalhados pelo Brasil.”

Construção coletiva e sustentável

Erguido em apenas 30 dias, o Armazém Quilombo Kalunga foi construído com técnicas tradicionais de bioconstrução, utilizando blocos de adobe — uma mistura de terra e água. Segundo o presidente da AQK, Carlos Aroeira, 80% da estrutura foi feita manualmente, com a participação de trabalhadores das próprias comunidades e com materiais locais.

“Reduzimos o orçamento em cerca de 40% em comparação a uma obra convencional. Eliminamos o uso de caminhões de areia, blocos de cimento, reboco e tinta. Pode jogar água que não desmancha, e o interior é naturalmente fresco”, afirmou.

Carlos também destacou o valor simbólico da participação coletiva na obra. “Muitos quilombolas que atuam na construção civil deixaram suas mãos registradas nesse processo. Essa energia compartilhada é essencial para fortalecer o sentimento de pertencimento.”

Valorização da produção Kalunga

A agricultura familiar e o extrativismo são as principais atividades econômicas das famílias Kalunga. Mandioca e gergelim estão entre os produtos mais utilizados na fabricação de farinha e óleo. Atualmente, há também um investimento crescente no aproveitamento de frutos do Cerrado, como pequi, baru, buriti e mangaba.

Bernadina Pereira, moradora da comunidade Vão de Almas, é uma das produtoras que leva adiante esses saberes tradicionais. Ela aprendeu com a mãe, ainda na infância, a transformar os alimentos da terra em produtos como óleos de coco, pequi e gergelim, além de farinha de mandioca.

“Pega o coco no mato, quebra, coloca no sol pra secar uns dois ou três dias. Depois torra, soca no pilão, cozinha e espera a água secar. O óleo sobe e tá pronto”, detalhou Bernadina, explicando que são necessários de dois a três quilos de coco para produzir um litro de óleo. “Leva um dia todo, tem que começar cedo, porque a gente soca no pilão, e isso demora mais”, completou.