Novo trecho da BR-010, proposto pelo governo federal, é uma ameaça severa às comunidades calungas e ao cerrado

Por mais de 200 anos, seres humanos escravizados, em virtude de sua cor, se refugiaram numa área muito remota e de dificílimo acesso, após fugirem dos trabalhos forçados nas minas de diamantes e de ouro, na região sertaneja do estado de Goiás, no Brasil central.

Nessa região, ficaram escondidos, isolados do mundo e conseguiram sobreviver.

Ali mantiveram suas culturas, sua religião, a forma de construir suas casas, a maneira de produzir seus alimentos, enfim, um mundo perdido intacto em relação à civilização moderna, até serem “descobertos”.

Por tabela, mantiveram conservada a imensa biodiversidade do cerrado, sua vegetação, seus rios e riachos, mananciais, além da rica fauna composta por animais silvestre, que também alimentavam aqueles “índios” negros.

São três as comunidades calungas: nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás.

A mais populosa comunidade está situada no município de Cavalcante, com pouco mais de duas mil pessoas, distribuídas nas localidades do Engenho II, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas, sendo esta última a mais recente a se integrar no seio do município (cerca de trinta anos).

Mais recentemente, alguns estudos têm indicado a presença de calungas também em regiões do estado do Tocantins, nos arredores de Natividade e regiões isoladas do Jalapão. Durante todo este período, houve miscigenação com índios, posseiros e fazendeiros brancos.

Um estudo de Universidade de Brasília, dissertação de mestrado da pesquisadora Cecília Ricardo Fernandes, traz um belíssimo e denso trabalho antropológico desse povo.

Acesse e leia a íntegra dessa Pesquisa

Mas tudo isso está seriamente ameaçado por uma obra “boba”, sem noção, tocada pelo governo federal, sem levar em consideração a visão sistêmica e o que a envolve.

Com o único propósito de diminuir a distância, em pouco mais de 126 km entre a capital do Tocantins, Palmas, e a capital federal, o DINIT já está licitando a construção de uma nova rodovia federal, a BR-010. 


Boa parte dessa BR é pelo curso da rodovia estadual GO-118, entre Brasília e Campos Belos (GO), trecho com cerca de 400 km.

Depois, a BR seguiria pela TO-050 e BR 242 entre Arraias e Paranã (TO).

Mas a governo federal pretende encurtar a distância, evitando que o tráfego passe por Campos Belos e Arraias, para economizar tempo dos transeuntes e das cargas, em míseros 100 km.

Para isso, inventou um novo trajeto, ligando o “nada” ao “lugar nenhum”.

Na GO-118, após a cidade Teresina de Goiás (sentido DF/Campos Belos), poucos quilômetros depois da ponte sobre o Rio Paranã, máquinas pesadas serão colocadas em ação para abrir o sertão dos calungas para dá espaço a esse novo trecho da BR-010.

Um absurdo sem tamanho.

O único benefício será o encurtamento da viagem em pouquíssimas horas e que nada afetará os preços dos fretes e das passagens de ônibus.

Em contrapartida, os prejuízos dessa insana obra, serão enormes e terríveis.

Quem conhece a região, sabe da existência dos paredões rochosos gigantescos e da imensidão das serras, morros e vales intermináveis da região, que outrora serviram para proteger os calungas dos algozes homens brancos e hoje guarda o tesouro da biodiversidade do cerrado.

O governo federal, por meio de engenheiros e operários, vai ter que usar muita dinamite e máquinas pesadíssimas para o intento. Pense agora no valor de dinheiro público envolvido nessa insanidade.

Para além do desperdício de verba pública, a ameaça é direta e será impactante para o cerrado, ainda virgem naquele espaço, refúgio agora de animais silvestres como onças, antas, pacas, tamanduás.

E ainda terá o enorme poder de levar mais pressão especulatória pecuarista e mineradora sobre terras de povos tradicionais.

E por último e não menos importante, jogará uma pá de cal sobre a economia ainda muito cambaleante do nordeste de Goiás e do sudeste do Tocantins, que até hoje ainda se ressente do esquecimento estatal.


A região ainda é conhecida como “corredor da Miséria”, muitíssimo diferente da pujança do sul de Goiás.

Arraias, Campos Belos, Combinado, Natividade, Conceição do Tocantins só começaram a ver sinal de progresso após a criação da capital do Tocantins, com trajeto quase que obrigatório para Brasília, pela GO-118.

Desde então, essa região esquecida por uma sequência de governantes do estado de Goiás foi arrefecida e ganhou um lampejo de civilização.

Mesmo assim, o nordeste de Goiás e o sudeste do Tocantins ainda possuem um dos piores IDHs do país, comparando-se a países da África Subsaariana.

Foi preciso haver a divisão do estado de Goiás para poder dá um pouco de fôlego à parte norte estadual, esquecida e abandonada.

A estratégia até que deu certo.

Mas com esse desvio, a cerca de 70 km de Campos Belos, o ostracismo vai voltar, com quase absoluta certeza e a escuridão da falta de giro da economia e suas consequências vai tornar a mostrar sua cara a essas comunidades, ainda renegadas pelos governos estaduais.

Ainda há tempo. É preciso ação política, eficiente e rápida, sem politicagem. 


Nós não aceitamos Campos Belos e Monte Alegre (GO) fora da BR-010. Políticos devem explicações (2015)



Governo concorda em federalizar quatro rodovias goianas. Entre elas a GO-118
 
(2015)

Publicada de Lei Goiás que doa GO-118 ao governo federal. Rodovia vai se tornar federal, em BR-010   (2017)

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2 comentários sobre “Novo trecho da BR-010, proposto pelo governo federal, é uma ameaça severa às comunidades calungas e ao cerrado

  1. Olá sou morador de Cavalcante e o verdadeiro traçado era para passar aqui por Cavalcante,e sair no Paraná TO, mudaram o traçado original!

  2. Tá na hora da população de Campos Belos, Arraias e cidade vizinhas, manifestarem e não deixar que mude a rota de Brasilia à Palmas, porque essa rodovia já existe há mais de 20 (vinte) anos. Vai ser um prejuízo muito grande para essa região. Vamos ficar a margem da rodovia. O correto é transformar a GO 118 e TO 050 na BR 010, porque está rota pronta, vai ser uma economia muito grande para a União. Nossos representantes eleitos precisamos do seu apoio.

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