Inspiração de Campos Belos (GO): escritor jovem, Lucas Pires é um fenômeno na Amazon

No último domingo (26) fui a uma livraria virtual e comprei por R$ 9 o livro “Metafísica dos Clichês: Para Jovens que se Tornaram Adultos Cedo Demais”, de autoria de Lucas Pires, um jovem escritor de Campos Belos (GO) e estudante de Direito do IDP, em Brasília.

O escritor é um fenômeno, com milhares de livros vendidos, um dos autores independentes mais vendidos da Amazon.

Como se isso fosse pouco, ele ainda dá voz às minorias em palestras já assistidas por mais de 12 mil pessoas.

Queria saber o motivo do sucesso de Lucas. O que ele escreve? o que ele conta sobre a nossa cidade? Por que se tornou tão lido e prestigiado?

Devorei as 40 páginas do livro em pouco mais de uma hora.

Nascido e criado no Morada Nova, bairro periférico da cidade de Campos Belos (GO), nordeste do estado, Lucas Pires é mais um jovem preto a lutar e vencer as estatísticas.

O Morada Nova fica do outro lado do morro, como os próprios moradores da cidade designam, para se referir às comunidades periféricas, palco de tráfico de drogas, assassinatos, violência e de muita carência.

Aos 22 anos, é filho de um mecânico e de mãe merendeira, e caçula de sete irmãos.

No livro, ele conta, num texto muito bom e profundo, como conseguiu driblar as dificuldades de uma infância sem privilégios, ingressar no curso de Direito numa conceituada universidade do Centro-Oeste, o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), até o primeiro emprego no Palácio do Itamaraty.

“Se eu consegui, por que não deixar um rastro, um passo-a-passo, para que as outras pessoas que, assim como eu, estavam perdidas e desacreditadas, consigam também?”, diz Lucas sobre a motivação para escrever o livro.

Lucas Pires é um jovem do novo milênio, aqueles nascido após o ano 2000.

O que ele escreve?

Lucas escreve, como adianta do prefácio, uma história comum de milhões de brasileiros, pobres, carentes, negros, com educação precária, condenado a um ciclo de vida difícil de ser quebrado.

E para quebrá-lo, há que se arrancar, não se sabe de onde, toda uma força interior de superação.

A obra é escrita em primeira pessoa e com um texto que dialoga com o leitor em questões caras e íntima de muitas famílias e com as incertezas de muitos adolescentes e jovens adultos do país.

“A dor de ingressar na faculdade já doía há meses e ver todo mundo partindo só não doía mais do que projetar-me num futuro onde nem um dos meus sonhos estavam realizados.

Em tinha medo de me arrepender e, ao mesmo, tempo, mais medo ainda de não ter do que me arrepender. Era angustiante olhar todos ali se preparando para ir embora. Meio às despedidas os abraços. Longos e de adeus”, diz ele num trecho do livro, com aquela agonia de quem termina o último ano do ensino médio e olha para o mundo com desespero peculiar.

Em outro trecho ele conta como vê aquela vida de quem fica na cidade e não se arrisca pelo mundo.

“Ao mesmo tempo em que olhava para o lado e via o justo contrário. Gente parada, apenas existindo. Sobrevivendo um dia após o outro, sem encontrar resposta, sem buscar perguntas e questionamentos, como que se todo o pouco que tinha fosse tudo o que houvera. Estava bom assim, doía mas estava bom, engolidos pelo fácil, não se angustiavam. Como que cegos, agem, e correm e dormem e namoram e trabalham, mesmo sem ter nenhuma vontade real de correr e namorar e dormir e trabalhar. Vivem, vazios. E dançam e esperam a morte antes mesmo de experimenta a vida.

Não conseguia me conformar com nada aquilo. Não me contentava com nada daquilo. Não me contentava sequer em ir até a rua da minha casa sem pensar que não pertencia mais àquela rua, e nem mesmo minha cama que me fora pertence por uma vida inteira, era mais a minha cama.”

É um livro fascinante e exemplar para muitos de nós, em especial aos jovens, que podem muito bem ter o autor como inspiração.

A publicação não está mais disponível digitalmente. Atualmente, é a Editora Baruch que detém os direitos de publicação e o exemplar se encontra com nova capa, nova diagramação, conteúdo especial, 70 páginas e está em pré-venda no site da editora (www.editorabaruch.com).
 

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