Artigo: Nordeste goiano. O que Goiás tem de pior agente esconde

Por João Beltrão Filho*

Com o término das eleições é hora de “baixar as armas” e de modo civilizado e imparcial cumprimentar os eleitos, lhes desejar saúde, sorte, sabedoria e elevado espírito público para que honrem cada voto recebido sejam eles de qualquer cidade, região, religião ou cor partidária.

Este é o momento oportuno para colocarmos em pauta as discussões dos graves e infindos problemas que afligem a Região Nordeste Goiano e a busca pelas suas soluções.

O Nordeste Goiano está localizado na divisa com os estados da Bahia e do Tocantins, se apresenta de forma homogênea, todos os seus municípios comungam dos mesmos males.  


Sua população sofre com a falta de investimentos e de políticas sustentáveis que busquem de forma definitiva minorar as asperezas da vida deste sofrido e altivo povo, o que lhe valeu o incômodo e infeliz pseudônimo de “Corredor da miséria”.

A região do  Nordeste Goiano conheceu os primeiros sopros do progresso no inicio da década de 60com o advento do governo Mauro Borges, onde ele, um estadista da maior grandeza, no afã de criar o projeto do Combinado Agro Urbano de Arraias, construiu a ponte sobre o Rio Paranã e a Usina Hidrelétrica do Rio Mosquito no município de Campos Belos, obras de imensa grandeza para a época. 

Com a queda do governador o projeto foi interrompido e a usina praticamente desativada pelo seu sucessor. 


Nos anos 70, foi anunciada a redenção do nordeste goiano com o inicio do Projeto Alto Paraíso, um arrojado projeto iniciado por um governo e lamentavelmente abortado e esquecido de forma irresponsável pelo sucessor. 

Nos idos dos anos 80, foi asfaltada a Rodovia GO 118 um grande feito para a ocasião e daí por diante nada mais de relevante foi executado no Nordeste Goiano pelos seguidos governos sejam eles de que tempo for (novo ou velho). 

Para evidenciar o descaso dos políticos no que toca aos desequilíbrios socioeconômicos verificados na região é só enxergar a estagnação da economia onde a exploração agrícola é de subsistência, praticada de forma empírica. 


A produção agropecuária apresenta baixos índices de produtividade, os comércios, na esmagadora maioria, são de pequeno porte e não há em toda a região quaisquer indústrias que seja pelo menos de médio porte. 

Na área da infra-estrutura, basta ver que em pleno século XXI o acesso a várias cidades da região é feito em estradas sem pavimentação. 


Em determinadas épocas do ano, principalmente no período chuvoso, tornam intrafegáveis e, pasmem, ainda há casos que é preciso atravessar transeuntes e veículos em balsas. 

A malha viária é péssima, vez que as estradas que foram asfaltadas há mais de 20 (vinte) anos nunca foram recuperadas e quase todos os aeroportos só recebem aeronaves de pequeno porte e não são pavimentados.

No que toca ao saneamento básico, algumas cidades não contam com serviço de tratamento de água, e rede de esgoto sanitário é um sonho distante que muitos moradores nem conhecem. 


Apenas duas cidades possuem este tipo de benefício. 

Apesar de ter sido construída na cidade de São Domingos uma Usina Hidrelétrica, os investimentos na renovação, manutenção e extensão de redes de energia elétrica é feito de forma precária, tanto que as constantes quedas no fornecimento de energia é fator inibidor da instalação de pólos industriais na região. 


Na época das chuvas é comum faltar energia até por 72 horas. 

Outro gargalo na região é a questão da regularização fundiária, cuja falta de titularidade e escritura das terras impede os pequenos produtores a ter acesso a financiamentos. 

Na área da educação foram implantadas duas unidades da Universidade Estadual de Goiás – UEG em toda a região (Posse e Campos Belos). 


É um fato relevante. 


Todavia é público é notório que as mesmas, apesar do esforço contínuo dos seus docentes, necessitam de investimentos maiores como a implantação de laboratórios de pesquisas, informatização, contratação de especialistas, pagamento de salários decentes e principalmente a oferta de cursos alternativos com ênfase na vocação regional. 

As escolas estaduais necessitam de reformas e reaparelhamento, com a implantação de laboratórios de pesquisas e informática, bibliotecas e áreas de recreação. 


Em suma, a educação no nordeste goiano está longe de atingir níveis desejáveis. 


Basta ver os baixos índices de aprovação das nossas escolas e alunos nos institutos de avaliação do governo, ENEM e IDEB.

Se a saúde pública no estado não é das melhores, no nordeste ainda é pior.  


A incidência de doenças, principalmente as provocadas pela falta de saneamento básico, a mortalidade infantil e outros tipos de males atingem índices alarmantes, comparados aos das regiões mais pobres do Brasil. 


Por esses motivos, o nordeste goiano detém os menores Índices de Desenvolvimento Humano – IDH do país. 

Não há um hospital de referência na região e os municípios gastam fortunas com ambulâncias para o transporte de pacientes para Brasília e Goiânia. 


Os que necessitam de hemodiálise, por exemplo, tem que deslocar até três vezes por semana, por mais de 400 Km, em  busca tratamento, o que chega a ser desumano.

No quesito desenvolvimento social, falta programas efetivos que busquem a erradicação definitiva da pobreza e da miséria, visto que os programas sociais que aí está são paliativos e não atendem de forma satisfatória a necessidade das camadas mais precisadas. 


Há carência de creches, programas de valorização dos idosos, apoio aos jovens e adolescentes e não há incentivos à geração de emprego e renda no meio rural. 

Para ilustrar o quanto é penosa a vida do pobre do nordeste goiano, não existe em nenhuma cidade uma agência da Caixa Econômica Federal, Instituto Médico Legal – IML ou um Posto de atendimento do INSS. 


Quando se tem necessidade destes serviços, dependendo da cidade, é preciso percorrer mais de 400 km para ter acessá-los. 

Vale destacar também a precariedade da segurança pública na região.  


O efetivo da policia militar é insuficiente e a policia civil, na maioria das cidades, não tem sequer uma sede e funciona de forma improvisada em imóveis cedidos pelas prefeituras. 

Policiais militares e civis se desdobram para prestar bons serviços sem aparelhamento, sem veículos, sem armamento e com baixos salários. 


Por conseguinte estamos vendo o aumento da criminalidade, dos delitos e o tráfico de drogas já é uma ameaça cada vez mais constante nas nossas cidades. 

Para mudarmos este cenário de desigualdade e desequilíbrio socioeconômico, objetivando tirar nosso povo da condição de miserabilidade e promover uma luta incessante para inserir a Região Nordeste Goiano na rota do progresso e da prosperidade é preciso reconhecer que a região é pobre e necessita de ações em todos os setores. 

Faltam estradas, energia, água tratada, saneamento básico, saúde, segurança, educação, indústrias, geração de emprego e renda, ou seja, falta tudo. 

É preciso que a população se mostre indignada com o tratamento dispensado ao Nordeste Goiano pelos políticos que em véspera de eleição alisam as nossas estradas em busca de votos, fazem promessas mirabolantes, registram em cartórios planos que criam ações especificas para a região, prometem criar companhias de desenvolvimento e fundos especiais para o nordeste e depois de eleitos desaparecem e nada disso sai do papel. 

É preciso que a sociedade e principalmente a imprensa cobrem o compromisso dos políticos de inserir em seus programas de governo projetos e ações concretas, palpáveis, viáveis e sustentáveis (não promessas) que busquem corrigir essas distorções, que proporcione de forma definitiva dar um tratamento igualitário aos dispensados às outras regiões.

É preciso correr contra o tempo e na hora de escolher os auxiliares que irão ajudar administrar o estado fazer uma abordagem critica para saber quem de fato conhece nossa realidade e tem vontade política de aproveitar nossas potencialidades de maneira racional e lógica, para que possamos dar um salto positivo rumo à prosperidade. 

Que os eleitos com os votos dos “nordestinos goianos” e os prefeitos da região exijam representatividade efetiva no governo para que em eleições vindouras possam merecer outra vez a confiança deste povo.

Há um Goiás dentro do Goiás. 

Existe um Goiás de regiões de economia pujante, impulsionadas pelas grandes indústrias, pelo crescimento das atividades agropecuárias, pela exploração mineral e inclusão no cenário turístico nacional. 


Existe este ou goiás que todos insistem em esconder. 

O que Goiás tem de melhor eles mostram, o que tem de pior eles escondem.



* João Beltrão Filho,  Técnico em Agropecuária pela Escola Agrotécinica Federal de Rio Verde/GO, Licenciado em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Goias, concluindo  Pós Graduação em Educação Ambiental pela Universidade Cândido Mendes/RJ, Poeta, Escritor e Diretor de Planejamento da Prefeitura Municipal de Campos Belos/GO

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